segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Porto das Naus Abrigou um Engenho

Confira a reportagem que foi publicada no jornal impresso da A Tribuna, sobre o Porto das Naus, no dia 17-07-11.





Fragmentos descobertos no primeiro trapiche brasileiro confirmam antigas suspeitas e aumentam sua importância histórica 



Fotos: Paulo Freitas

Texto: Victor Miranda


Da Redação

Se antes havia suspeitas, agora não restam mais dúvidas. O local conhecido como Porto das Naus ­ primeiro trapiche da história do Brasil ­, em São Vicente, abrigou um engenho entre o final do século XVI e o século XVII. A constatação se deu após a primeira fase de escavações arqueológicas. Fragmentos na forma do Pão de Açúcar encontrados debaixo da terra confirmam o fato histórico. Uma pequena fossa em formato circular também serve como um forte indício de que o local foi um engenho. Até então, tudo o que existia eram algumas suposições, baseadas em mapas antigos e imprecisos e relatos de historiadores que acreditavam possuir evidências. Agora, o local situado no bairro do Japuí passa a ter uma importância histórica ainda maior, por se tratar de um ponto importante das primeiras décadas da colonização do Brasil. Nem precisou escavar muito para se chegar às descobertas. A menos de um metro abaixo da terra já foi possível encontrar um piso antigo, da época do engenho, que indica uma sobreposição das estruturas no decorrer dos anos. "Sempre se falou que esse era um lugar com grande relevância, que uma escavação aqui poderia revelar muitas coisas, mas nunca havia sido feita uma pesquisa arqueológica no Porto das Naus. Ainda estamos no começo dos trabalhos e, por isso, acredito que ainda teremos muito mais descobertas", comenta o arqueólogo Manoel Gonzalez. As atividades começaram há menos de seis meses. Pelo teor do que foi encontrado, o especialista prevê que o trabalho será de longo prazo, durando pelo menos cinco anos. Alguns aspectos, aliás, têm dificultado a vida dos pesquisadores. Ao longo dos anos, foram feitas várias ações paisagísticas que acabaram por degradar o material histórico. Pedras do paredão que compõe o cenário, por exemplo, foram removidas para fazer caminho. As estruturas antigas foram ignoradas e até substituídas por novas em alguns pontos. Árvores plantadas no local também prejudicam as escavações. 






Ousadia


Mesmo com esses percalços, o historiador Marcos Braga diz estar motivado para as próximas etapas dos trabalhos. Junto a órgãos ambientais, foi conseguida a remoção de algumas árvores que ficam bem no meio do sítio. "Há uma verba federal que estamos aguardando para iniciar as pesquisas submersas. Mas não vamos ficar só na água. Queremos fazer um trabalho no sentido do morro. De repente, encontramos um ponto de observação do antigo trapiche", supõe. Do mar, eles esperam encontrar restos de embarcações e arte fatos antigos, especialmente dos séculos XVII e XVIII. Uma vez que a maré possivelmente era mais baixa, essa tese ganha força. Após um trabalho de limpeza na margem do Porto das Naus, foram encontradas faianças ­ a mais antiga é inglesa, do século XVIII.



Segundo Braga e Gonzalez, alguns moradores mais antigos relataram, em outras ocasiões, a existência de urnas funerárias no Morro do Japuí. Eles acreditam que possa existir, inclusive, um cemitério indígena no local. Como antigamente não havia a Avenida Tupiniquins separando o morro do mar, é bem provável que a área do engenho avançasse no sentido da vegetação.






Local deixou sua marca na história

Ruína do início do século XVI, o Porto das Naus é tombado como patrimônio histórico federal (Iphan), estadual (Condephaat) e municipal (Condephasv). Embora remeta ao início da fase de colonização, o local já era utilizado antes da chegada de Martim Afonso a São Vicente, por homens como o Bacharel de Cananéia, Antônio Rodrigues e João Ramalho. O Porto das Naus esteve diretamente ligado às origens da Vila de São Vicente. Documentos indicam que funcionou como ponto de produção e comercialização de produtos da Vila e da Capitania de São Vicente no século XVI. O Bacharel de Cananéia, por volta de 1510, utilizava o ponto como estaleiro e porto de sua povoação, onde construía bergantins, (pequenos barcos) e realizava reparos nas embarcações que por ali passavam. Historiadores ainda não chegam a um consenso se a área abrigou a chegada da esquadra de Martim Afonso de Souza­ a outra hipótese é que a mesma se deu pela Ponta da Praia. Benedito Calixto era um dos que defendiam que o fundador da Vila de São Vicente aportou no Porto das Naus. É quase certo que desde a fundação oficial da Vila, em 1532, o Porto das Naus foi utilizado como um trapiche alfandegário ­ o primeiro do Brasil. Mas a partir do final da década de 1540, o local passou por mudanças de uso. O chamado "maremoto" que destruiu a antiga Vila de São Vicente próximo a 1540 foi um dos motivos. Uma grande ressaca assoreou a entrada da barra da baía de São Vicente, tornando-a inavegável para embarcações de grande porte. Além disso, a fundação da Vila de Santos, com um excelente porto natural, tornou o Porto das Naus obsoleto. 


O desmatamento causado pela extração do pau-brasil é outro fator que pode ter contribuído para o assoreamento da Baía de São Vicente. O local também sofreu com a ação de piratas. Em 1536 foi atacado por Ruy Mosquera. Entre 1585 e 1591, foi a vez do corsário inglês Thomas Cavendish. Em 1615, a Vila foi atacada pelo corsário holandês Jorisvan Spillbergen, sendo famosa uma ilustração desse ataque, que mostra as edificações do engenho ­agora de existência comprovada ­em chamas. Após 1580, o Porto das Naus foi transformado em engenho de açúcar por Jerônimo Leitão, que ali construiu um trapiche, uma capela (Nossa Senhora das Naus) e casa de purgar. O engenho deveria ter uma ligação direta com a encosta do morro, principalmente para captação de água. Essas edificações foram destruídasnoataquede1615. Após o início do século XVII, intensificou-se o declínio não só da Vila de São Vicente como de toda a Capitania de São Vicente, e o local do Porto das Naus foi perdendo sua importância. Mesmo assim, por sua localização, continuou como lugar de desembarque de pessoas que vinham da ilha para o continente em embarcações saindo do Portinho ao lado do atual Morro dos Barbosa (Corpo de Bombeiros). 



Sonho é criar projeto educacional



As descobertas recentes, aliadas a já constatada relevância histórica do Porto das Naus, têm feito o historiador Marcos Braga sonhar. Seu alvo: transformar o aspecto do local em uma área de interesse cultural e educacional. Para isso, a partir de janeiro, o espaço deve integrar um roteiro histórico de São Vicente, que teria início no próprio Porto das Naus e seguiria até a Igreja Matriz. A proposta será compartilhada com a Secretaria da Educação. "Queremos que as crianças acompanhem o trabalho dos arqueólogos, participando desse sítio escola.Vamos fazer um trabalho de banners explicativos e até colocar os alunos para ajudar em a escavar",relata. O arqueólogo Manoel Gonzalez explica que a idéia é criar um projeto museológico. "Se tudo der certo, teremos passarelas sobre a área de escavações, onde será possível observar o cotidiano dos nossos trabalhos". Conversas para viabilizar essa iniciativa já foram iniciadas junto à Prefeitura de São Vicente. A proposta é que o sítio-escola faça parte das comemorações dos 480 anos da Cidade, que acontecem em 2012. 




Descoberta é relevante para memória do País

O trabalho realizado no Porto das Naus tem uma relevância muito maior do que parece. Segundo o arquiteto do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), Victor Hugo Mori, as descobertas no local são tão importantes quanto às do Engenho dos Erasmos, em Santos. "É um trabalho maravilhoso, e uma descoberta muito relevante. Os mapas e as informações que tínhamos até então, sempre foram imprecisos. Mas agora não restam mais dúvidas: aquele local abrigou um engenho". Segundo ele, sempre foram comentadas três possibilidades para o Porto das Naus: terminal alfandegário, armazém alfandegário ou um engenho de açúcar movido por tração animal. Agora, são duas hipóteses e uma certeza. "As outras interpretações ainda podem ser confirmadas ou não, dependendo do que for encontrado. Mas podemos destacar a importância de um engenho que comprovadamente fez parte dos primeiros anos da colonização do Brasil", relata Mori, empolgado. 


Fonte: A Tribuna

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